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Areia Hostil entrevista Júlio Shimamoto

novembro 26, 2009
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Por Vagner Francisco (12/03/05).

Ele estreou como desenhista de quadrinhos em 1959, na Editora Continental/Outubro. Entre 1961 e 1964, foi um dos líderes do movimento pela lei de nacionalização dos quadrinhos. Após o golpe militar de 64, foi fichado como comunista e subversivo, tendo que migrar para a publicidade. Sua grande volta aos quadrinhos se deu em 1978 e, a partir de então, não parou mais. Produziu para as editoras, Vecchi, Rio Gráfica, Grafipar, Press e Opera Graphica, além de colaborar com várias revistas independentes, como Made in Quadrinhos e Mystérion (essa última ainda contém o último trabalho do saudoso Flávio Colin nos Quadrinhos). Os álbuns Sombras, Musashi I e II, Madame Satã, Volúpia e Claustrofobia estão aí para provar que ele ainda muito que mostrar.

Estamos falando de um dos mais queridos (e humildes) artistas dos quadrinhos de nosso país. Com vocês: Júlio Shimamoto.

Areia Hostil: Bem, para começar, conte-nos quem é Júlio Shimamoto. Como e quando surgiu o interesse pelas Histórias em Quadrinhos.

Júlio Shimamoto
: Sou um caipira, nascido em Borborema, interior do estado de São Paulo. Em 1944, tinha 5 anos quando ganhei os três primeiros gibis de papai. Morávamos no sertão, próximo das divisas com Mato Grosso, numa região hostil, onde confrontos de jagunços com posseiros eram rotina.

AH: Sombras e Volúpia foram praticamente os álbuns de estréia da Opera Graphica Editora no mercado de HQs. Como se deu esse processo? E, o quanto o senhor participou da criação (da Editora)?

JS: Sombras tinha sido rejeitada pela Editora Escala. Então, Carlos Mann e Dário Chaves bancaram seu lançamento através da recém-fundada Opera Graphica. Minha participação? Nenhuma. O selo inicialmente era apenas nome de estúdio de criação de projetos de publicações para a Editora Escala. Só mais tarde, Carlos e Dario incorporaram uma editora ao estúdio. Depois de Sombras, a Opera me encomendou Volúpia, uma antologia de agaquês eróticas que eu produzira para a Grafipar, de Curitiba, nos anos 1970 / 80.

AH: O senhor ainda lê quadrinhos tradicionais? Se sim, cite alguns, por favor, e suas qualidades.

JS: Raríssimamente. Leio mesmo os fanzines que chegam às minhas mãos. Qualquer um. E gosto. Faz-me recordar meus inícios de quadrinista inseguro e esperançoso. Procuro manter ainda agora essa inquietação de principiante. Repudio o conformismo. Ensinou-me a falecida avó que quando tudo se fica fácil é porque se está prestes a morrer, se já não morreu.

AH: Fale-nos, por favor, um pouco de Claustrofobia. Como foi trabalhar com Gonçalo Júnior?

JS: Conheci Gonçalo quando ele fazia fanzines e me entrevistou. Morava ele na Bahia. Anos mais tarde, conhecemo-nos pessoalmente num evento de agaquês, em Sampa. E a Opera (Graphica Editora) o incumbiu de escrever minha trajetória profissional no Musashi I. Então, contou-me que ele tinha centenas de roteiros escritos e escolheria alguns para me enviar, se eu quisesse quadrinizá-los. Topei para retribuir-lhe o favor (o prefácio de Musashi I). Comentei com ele que as histórias tinham climas claustrofóbicos. Então, Gonçalo batizou o álbum de “Claustrofobia”.

AH: Há bons roteiristas de Quadrinhos no Brasil?

JS: Devem ter. Mas o mercado pobre não os estimula a trabalhar com os quadrinhos. A média de remuneração se resume tradicionalmente a ¼ do que se paga ao desenhista, que já não é muito. Bons roteiristas e redatores estão, ou vão para a publicidade e jornalismo. Até roteiristas de Hollywood ganhavam miséria até poucos anos atrás. Fizeram greve. Só assim conseguiram bônus quando os filmes alcançavam sucessos de bilheteria. Mesmo assim, nunca alcançaram as remunerações de um diretor ou de um ator.

E um roteirista de cinema pasta à beça. Soube de roteiristas que reescrevem até dez vezes para um projeto de filme. O diretor palpita; o produtor palpita; e até o ator pede para adequar o diálogo para seu estilo de interpretação.

E nos quadrinhos não chega a tanto, mas os roteiros sofrem alterações por influências do editor, ou do desenhista.

AH: Assim como está acontecendo no futebol, já há algum tempo, os artistas (ou aspirantes a) de Quadrinhos já não se entusiasmam mais em publicar HQs no Brasil, preferindo desenhar, principalmente, para as editoras americanas, onde há mercado sólido e retorno financeiro garantido. O senhor concorda com essa atitude? Há como revertermos esse quadro?

JS: Concordo. Raras exceções, só quem deixa de ser provinciano e se imbui de mentalidade profissional cosmopolita pode se realizar como quadrinista, com todas as letras. Veja os desenhistas argentinos nos anos 50 e 60: foram para a Europa e os EUA. Salinas desenhou Cisco Kid, para a King Features (para citar um só). Do Brasil, saiu Fernando Dias, Gut (anos 60).

Os irmãos Bá, (Mike) Deodato, Wagner Antunes, etc, também costumam usar seus passaportes para ir a San Diego (a maior convenção de Quadrinhos americanos, onde geralmente, as grandes editoras dão um preview de seus grandes lançamentos da temporada), vender seus talentos. Nos anos 70 e 80, os filipinos vendiam seus “peixes” para editoras americanas (Warren, remember?).

AH: Na sua opinião, qual o futuro do mercado de Quadrinhos brasileiros?

JS: Acho que está escondida no contexto da pergunta anterior. O mercado tupiniquim vai ser sempre do mesmo tamanho de sempre, se não decrescer, é claro. Como os jogadores de futebol, os bons vão desenhar para fora e os provincianos – como eu, caipirão – ficarão por aqui, envelhecendo. Raras exceções, como Mauricio de Sousa e Ziraldo, sobreviverão bem aqui.

(Flávio) Colin, o saudoso mestre, sempre lamentou comigo não ter ido pros States quando teve oportunidade e apoio.

AH: De seu repertório de Histórias, qual a sua preferida?

JS: Não sinto firmeza. Ainda não fiz a minha agaquê preferida. Lembro-me sempre do que disse a minha avó. Tenho vontade de viver mais um pouco, de verdade, ainda que provinciano e matuto.

AH: Que tipo de música o senhor ouve?

JS: Gosto de músicas dos anos 50 e 60, latinas. Atualmente, tenho ouvido músicas populares japonesas, de décadas passadas.

AH: O senhor costuma ir a convenções (tipo Fest Comix)? Se sim, o senhor gosta dessa aproximação com os leitores?

JS: Chamam-me “O Eremita de Jacarepaguá”, pois raramente vou a eventos. Quando vou, até que curto o contato com os colegas e leitores. Continuo caipirão. E se há alguma premiação em meu nome, aí é que não vou mesmo! Tenho pavor de holofotes, ou atenção concentrada em mim. Timidez ou algum trauma de infância, quem sabe?

AH: O que vem pela frente, de Júlio Shimamoto, que poderia nos adiantar?

JS: Vários projetos atrasados: Musashi III; Zatoichi, O Espadachim Cego; Hideyoshi, de Mendigo a Shogum e 100 Anos da Imigração Japonesa.

AH: Bem, agradeço por essa oportunidade de entrevistá-lo e caso o senhor queira deixar um recado para os fãs e para os quadrinistas que estão começando, o espaço é todo seu…

JS: Eu é que agradeço à Areia Hostil por essa oportunidade de falar um pouco sobre quadrinhos, a minha cachaça. Bem, para os fãs, agradeço por me prestigiarem sempre. E aos quadrinistas que estão no início: pensem grande, com a mente cosmopolita. Nunca sejam provincianos. Obrigado pela atenção e abração a todos.

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