Skip to content

Areia Hostil #10

novembro 27, 2009
by

Em setembro de 2004, a Areia Hostil lançou à sua décima edição impressa trazendo em suas páginas as HQs dos seguintes quadrinhistas:

Edgar Franco: No futuro, a quem deveremos dedicar nossas orações? (Ficção / Ciberpunk)

Edu Manzano: Os homens de amanhã poderão não passar de “Herdeiros da Mentira”.(Ficção / Drama)

Ozi: Depois dos loucos Dod e Dosmeu, chega às páginas da AH Ander e Graund, a mais nova dupla deste cartunista, em tiras hilariantes. (Humor)

Lorde Lobo: Em uma HQ autobiográfica, o autor discute sobre o poder das onomatopéias. (Humor)
Jottas: Mais um quadrinhista estreando na AH, juntamente com seu personagem, o Rashaverack. (Herói)

Carlo Diego: Wild, o eterno candidato a super-herói em mais uma das suas. E ainda, uma tira das bruxas Amélia e Magnólia. (Humor)

Anderson Cossa: Rui, o protetor cósmico, resolve visitar seu planeta-natal e Sampson-Boy o acompanha em mais esta aventura. (Humor / Herói)

Law Tissot: A segunda parte do arco de histórias de Slamer, o Deus-Serpente. (Ficção / Ciberpunk)
Vagner Francisco: Para onde vão os personagens esquecidos por seus leitores? (Aventura)

O editorial deste número foi escrito pelo jornalista Sidney Gusman, editor do site Universo HQ e colunista da revista Wizard Brasil, mídias especializadas em histórias em quadrinhos.

PARA LER CLIQUE AQUI!

Vagner Francisco, um grande colaborador

novembro 27, 2009

Em 2004 a Areia Hostil começou a publicar as HQs de um artista cambeense(que nasce em Cambé, PR) em seu site, mas o cara foi tão edicado que passou a ser um dos grandes colaboradores da revista. Neste mesmo ano, seu personagem Val ilustrou a capa do Zine.

Para homenagear este artista nós ao invés de publicarmos a HQ da revista aí acima, resolvemos colocar seus primeiros materiais enviados para nós. As HQs são:

  • No congestionamento
  • It’s my life
  • Mais uma do Val
  • Na sala de espera

Veja no link abaixo estas histórias antigas de Vagner Francisco.

PARA LER CLIQUE AQUI!

 

 

 

Para quem não viu…

novembro 27, 2009
by

O Mundo Louco de Ozi, assim como os outros quadros da Areia Hostil seguiu em paralelo. Aí vai o primeiro apanhado do Mundo Louco.

Para ler CLIQUE AQUI

Areia Hostil entrevista Adão Iturrusgarai*

novembro 27, 2009

Adão Iturrusgarai e Lorde Lobo

Adão Iturrusgarai é certamente um dos maiores expoentes dos quadrinhos brasileiros. Dono de um traço inconfundível, este gaúcho de Cachoeira do Sul, onde nasceu em 1965, conquistou seu lugar ao sol, colocando no papel muita ironia e irreverência.

Chegou a cursar alguns semestres de Artes Plásticas, mas formou-se em Publicidade e Propaganda, pela PUC de Porto Alegre. Em 1991, editou a Dundum e pouco tempo depois mudou-se para Paris, onde também publicou. Em 1993 volta ao Brasil, mas fica em São Paulo, onde passa o escrever roteiros para alguns programas de humor da Rede Globo de Televisão. No ano de 1994 foi aceito pelos cartunistas Glauco, Laerte e Angeli e passou a fazer parte do trio Los 3 Amigos. De lá para cá, tem publicado em muitas revistas e jornais de todo o Brasil – e também de Portugal – e atualmente, morando no Rio de Janeiro, vem trabalhando com as tiras e histórias da Aline, uma garota com dois maridos.

Areia Hostil: Quando percebesses que sabias desenhar?

Adão Iturrusgarai: Desenho desde que me percebi como gente. Desde criança. Podem

chamar isso de dom… sei lá.
AH: E como passasses a lidar com esta “nova habilidade”? Pretendias usá-la para o bem (Ó, que legal! Poderei fazer um monte de desenhos bonitinhos e enfeitar o mundo!) ou para o mal (Que menina chata, vou desenhar ela bem feia! Ela vai ver só!)?

AI: Sempre pretendi usar para o “mal”. Meus primeiros desenhos eram feitos com cacos de tijolos e a maioria eram pornográficos ou com o intuito de sacanear alguém.

AH: Até então, praticamente teus desenhos eram vistos só por ti e teus familiares, não? Quando foi que começastes a mostrá-los para outras pessoas?

AI: Quando era criança, depois de meus familiares, as primeiras pessoas a verem meus desenhos eram os meus colegas de aula. Eles sempre me elogiavam e diziam que quando eu crescesse seria desenhista.

AH: Tu era do tipo que lia mais livros didáticos ou revistas de histórias em quadrinhos?

AI: Acho que lia mais histórias em quadrinhos. Mas eu era um bom aluno. Lia os livros didáticos e tirava notas boas. E sem me esforçar muito. O meu maior problema era o mau comportamento. Era um aluno muito chato.
AH: Quais artistas mais te inspiravam na hora de desenhar? Ou melhor: Tu começou copiando quem?

AI: Devo ter começado copiando o Mauricio de Sousa e o Walt Disney. Anos mais tarde comecei a copiar o Henfil. Depois vieram Angeli, Crumb…


AH: Qual foi o teu primeiro personagem próprio? Como ele era?

AI: Tinha os personagens que desenhava quando era criança e não lembro deles direito. Tinha um cientista maluco. Gostava de desenhar os meus colegas de aula. Rocky e Hudson foram meus primeiros person

agens mais conhecidos. Eu tinha 25 anos quando os criei.

AH: Quando começasses a fazer tuas próprias histórias em quadrinhos?

AI: Desde criança. Quando tinha uns 10 anos de idade fiz o meu primeiro fanzine, com a ajuda de um amigo. Acho que lá pelos 14 anos comecei a formatar melhor o meu trabalho, tipo colocar em tiras ou em formato de HQ.

AH: Sabias que se tratava de um fanzine? Quando tomasses consciência disso?

AI: Na época não sabia que tava fazendo um “fanzine”. Não se tinha informação ainda dessas coisas.

AH: Poderias citar alguns títulos de zines editados por ti? Já eram de humor ou outro gênero?

AI: Não fiz muito fanzine. A Dundum era um fanzine de luxo… Também ajudei a montar “Heroína”, com amigos de São Paulo.

AH: Até onde se sabe, fanzine nunca rendeu muita grana pra ninguém. Então, o que fazias pra ganhar dinheiro?

AI: Me formei em publicidade e propaganda e trabalhei alguns anos como diretor de arte em agências e na prefeitura de Porto Alegre, quando o PT assumiu. Isso me sustentava enquanto fazia quadrinhos e esperava o momento pra viver só do desenho.
AH: E esta formação em Publicidade e Propaganda pela PUC/RS, foi pra obter um certo respeito profissional?

AI: Não foi pra obter respeito. Era a opção mais próxima de minhas aptidões. Afinal, não há curso superior de quadrinhos.
AH: Quando começasses a publicar teus trabalhos em jornais? E como se deu esse primeiro momento? Os editores nunca complicaram pelo fato do teu traço não ser tão “comportado” quanto o do Mauricio de Sousa, por exemplo? Ou foi justamente isso que te facilitou a entrada no mercado?

AI: Meu primeiro cartum foi publicado no Jornal do Povo de Cachoeira do Sul, minha cidade natal. Fiquei admirado ao ver meu trabalho impresso pela primeira vez, com minha assinatura e tal. Aí ganhei uma coluna, um quadradinho semanal. Nunca tive problemas com o meu traço. Talvez mais com a temática, mais agressiva que o quadrinho infantil, tradicional. Mas isso acabou se transformando na minha marca e acho que acabou me ajudando.
AH: Teu “boom” profissional se deu quando passasses a trabalhar com o Angeli e Cia, né? Como foi isso?

AI: Em 1993 decidi mudar para São Paulo. Esse foi um passo importantíssimo para profissionalizar minha carreira. Comecei a escrever roteiros de humor para a TV Globo e comecei a publicar na Folha de São Paulo acompanhado de Angeli, Glauco e Laerte. Também comecei a publicar ilustrações em várias revistas.

Los Três Amigos: Glauco, Adão, Laerte e Angeli

AH: Também passasses um tempo morando no exterior. O que isso te trouxe de crescimento, tanto pessoal como profissional?

AI: Antes de me mudar pra São Paulo morei um ano em Paris. Cheguei a publicar timidamente algumas coisas por lá. Mas lá o mercado é duríssimo, como aqui. Então achei mais jogo voltar pro Brasil. Na época, década de 90, as coisas estavam mais quentes por aqui. Paris me trouxe mais crescimento pessoal. Crescimento profissional tive em São Paulo.
AH: Na tua opinião, atualmente tem surgido coisas boas, ou achas que a safra de novos cartunistas tá um tanto fraca? E como tens visto o mercado brasileiro em relação a este ponto? Existe espaço pra todo mundo?

AI: Acompanho o surgimento de alguns novos e bons cartunistas. Não acho que a nova safra esteja fraca. Acho que tem bons desenhistas que ainda não conhecemos. Nunca vai existir espaço pra todo mundo, infelizmente. Aí, o mercado vai sempre estar no prejuízo… e os editores desconhecem os novos desenhistas.


AH:
Nota-se a pouca abertura de oportunidades para quem tá começando agora (e mesmo pra quem já tá há um bom tempo na batalha, mas que ainda não teve sorte suficiente) mas, recentemente, tu deu uma baita força pro cartunista pelotense Rafael Sica, ao indicar o trabalho dele pro editor do caderno Folhateen, do Folha de São Paulo. Mas e pros outros tantos, qual a saída? Mais uma vez, os fanzines seriam a resposta pra essa galera?

AI: Acho que a saída é continuar desenhando, publicando zines, enviando seus trabalhos para os editores. Não existe uma fórmula mágica. E o mercado é pequeno e fechado. Mas, se cair nas mãos de um editor bacana, quem sabe. Foi o caso do Rafael Sica.

AH: Mas voltando ao teu trabalho, quem te conhece, percebe uma certa semelhança física entre tu e o Otto, uns dos namorados da Aline. Isso foi intencional ou aconteceu sem querer?

AI: A semelhança foi sem querer. Muitas pessoas dizem que meus bonecos se parecem comigo. O que eu acho uma afronta porque eles são horrorosos… nariz e beiço grande.

AH: Lá em Pelotas, durante o 1º Fórum de Humor Gráfico (setembro/2003) em uma mesa-redonda, dissesses que consideras a Aline como uma espécie de neta da Rê Bordosa, do Angeli. Também te pergunto se essa foi a tua intenção, ou se ela foi tomando o lugar da Rê, no coração dos leitores, de forma natural?

AI: Não foi intencional de maneira nenhuma. Foi uma coisa natural que refleti depois de alguns anos de publicação da Aline. Muita pretensão minha?

AH: Bem, eu teria mais uma infinidade de coisas pra te perguntar, tipo: Se enxergas a internet como algo que tá vindo pra substituir o material impresso, ou se é só mais uma ferramenta? Quais teus planos para o futuro? Qual conselho darias pra quem tá começando? E assim por diante… Mas não precisas responder estas coisas de sempre porque, pra terminar, vou te deixar com uma pergunta bem cretina: Se tu tivesse nascido Aline, terias criado o personagem Adão?

AI: Não sei se vai substituir o material impresso. Mas a internet vai crescer cada vez mais e os espaços vão se ampliar. Planos para o futuro? Desenhar mais e mais, criar novos personagens, publicar mais livros. Conselhos para quem tá começando? Desenhar bastante, muita coragem e pouca timidez. O caminho é longo e demorado. Se eu tivesse nascido Aline? Ocuparia todo o meu tempo em cuidar de meus dois maridos… pra eles não sumirem do mapa.

Valeu, Lorde Lobo. Abração.

Adão.

AH: Nós é que agradecemos, Adão! Muito obrigado e continue nos brindando com todos este bom humor, através dos seus irreverentes personagens!

E para quem ainda não conhece a home page do Adão Iturrusgarai, deixamos aqui o endereço eletrônico do cara:

http://www.adaoonline.com.br

*Entrevista originalmente publicada em março de 2004

 

MUTAÇÃO: O Primeiro fanzine de quadrinhos rio-grandino?

novembro 26, 2009
by

Texto de  Law Tissot

Em novembro de 1984, Law Tissot, Marco Muller e Rodnério Rosa criaram o Grupo Mutação de Quadrinhos e lançaram o fanzine Mutação. Esta publicação tinha o espírito da época, pois os quadrinhos independentes começavam a proliferar pelo Brasil. Muitos leitores fiéis ao quadrinho nacional estavam órfãos da Editora Grafipar, de Curitiba (PR), mas podiam encontrar nas bancas as publicações de terror da Editora D-Arte (hoje também extinta), como as revistas Calafrio e Mestres do Terror, que publicavam as histórias em quadrinhos de artistas consagrados como Julio Shimamoto, Mozart Couto, Rodval Matias, Rodolfo Zalla, Flávio Colin e um vasto etc. Essas revistas ofereciam um importante espaço para troca de correspondências entre os leitores e acabou fomentando muitos fanzines, principalmente nos grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro. Neste período surgiu o fanzine Arte-Final, de um pessoal que era fanático pelo artista Watson Portela. Este zine se tornou bastante comentado e acabou inspirando outros fanzines que chegavam para depois irem aos poucos desaparecendo, em meados dos anos 1980.

O fanzine Mutação nasceu com muito sonho e ambição e já no primeiro número ostentava na capa uma ilustração exclusiva do quadrinhista Gustavo Machado – outro nome importante vindo da Editora Grafipar, Marco Muller, Law Tissot e Rodnério Rosa investiam em roteiros sofridamente influenciados pela revista Heavy Metal. Publicaram ainda nesta edição de estréia, um pôster de José Carlos Neves – editor, junto de César Ricardo da Silva, do famoso fanzine de ficção-científica Hiperespaço – e uma biografia de Júlio Shimamoto, feita por Rodnério através de seus intensos contatos com o artista.

Logo após o lançamento deste primeiro número, Rodnério Rosa foi embora para Porto Alegre onde vive até hoje. Na capital, Rodnério andou agitando pela Grafar – Grafistas Associados do RS – e às vezes lança algum número de sua própria publicação, a Made In Brasil. Law Tissot partiu para seu próprio fanzine de quadrinhos cyberpunk, o X-TRO e Marco Muller seguiu em frente, assumido o controle do Mutação, que foi evoluindo a cada número, chegando a ter 132 páginas em sua sétima edição, publicando durante sua existência (no total foram nove edições até 1988) nomes importantes do quadrinho nacional como Olendino Mendes, Mozart Couto, Julio Shimamoto, Henrique Magalhães, Wallace Vianna, Deodato Borges (Mike Deodato)… só para citar alguns.

Mas Marco Muller foi muito além do Mutação, lançando um fanzine após o outro, todos com um excelente cuidado gráfico e de propostas editorias diversas, podemos lembrar aqui dos emblemáticos títulos Leve Desespero e Gesto Estúpido.
Em 1984, literalmente longe demais das capitais, os três amigos não tinham idéia da história que estaria sendo criada com o Mutação. Visto que, até que se prove o contrário, ele foi o primeiro fanzine rio-grandino, dedicado às histórias em quadrinhos, a atingir um reconhecimento em nível nacional.

 

Areia Hostil entrevista Júlio Shimamoto

novembro 26, 2009
by

Por Vagner Francisco (12/03/05).

Ele estreou como desenhista de quadrinhos em 1959, na Editora Continental/Outubro. Entre 1961 e 1964, foi um dos líderes do movimento pela lei de nacionalização dos quadrinhos. Após o golpe militar de 64, foi fichado como comunista e subversivo, tendo que migrar para a publicidade. Sua grande volta aos quadrinhos se deu em 1978 e, a partir de então, não parou mais. Produziu para as editoras, Vecchi, Rio Gráfica, Grafipar, Press e Opera Graphica, além de colaborar com várias revistas independentes, como Made in Quadrinhos e Mystérion (essa última ainda contém o último trabalho do saudoso Flávio Colin nos Quadrinhos). Os álbuns Sombras, Musashi I e II, Madame Satã, Volúpia e Claustrofobia estão aí para provar que ele ainda muito que mostrar.

Estamos falando de um dos mais queridos (e humildes) artistas dos quadrinhos de nosso país. Com vocês: Júlio Shimamoto.

Areia Hostil: Bem, para começar, conte-nos quem é Júlio Shimamoto. Como e quando surgiu o interesse pelas Histórias em Quadrinhos.

Júlio Shimamoto
: Sou um caipira, nascido em Borborema, interior do estado de São Paulo. Em 1944, tinha 5 anos quando ganhei os três primeiros gibis de papai. Morávamos no sertão, próximo das divisas com Mato Grosso, numa região hostil, onde confrontos de jagunços com posseiros eram rotina.

AH: Sombras e Volúpia foram praticamente os álbuns de estréia da Opera Graphica Editora no mercado de HQs. Como se deu esse processo? E, o quanto o senhor participou da criação (da Editora)?

JS: Sombras tinha sido rejeitada pela Editora Escala. Então, Carlos Mann e Dário Chaves bancaram seu lançamento através da recém-fundada Opera Graphica. Minha participação? Nenhuma. O selo inicialmente era apenas nome de estúdio de criação de projetos de publicações para a Editora Escala. Só mais tarde, Carlos e Dario incorporaram uma editora ao estúdio. Depois de Sombras, a Opera me encomendou Volúpia, uma antologia de agaquês eróticas que eu produzira para a Grafipar, de Curitiba, nos anos 1970 / 80.

AH: O senhor ainda lê quadrinhos tradicionais? Se sim, cite alguns, por favor, e suas qualidades.

JS: Raríssimamente. Leio mesmo os fanzines que chegam às minhas mãos. Qualquer um. E gosto. Faz-me recordar meus inícios de quadrinista inseguro e esperançoso. Procuro manter ainda agora essa inquietação de principiante. Repudio o conformismo. Ensinou-me a falecida avó que quando tudo se fica fácil é porque se está prestes a morrer, se já não morreu.

AH: Fale-nos, por favor, um pouco de Claustrofobia. Como foi trabalhar com Gonçalo Júnior?

JS: Conheci Gonçalo quando ele fazia fanzines e me entrevistou. Morava ele na Bahia. Anos mais tarde, conhecemo-nos pessoalmente num evento de agaquês, em Sampa. E a Opera (Graphica Editora) o incumbiu de escrever minha trajetória profissional no Musashi I. Então, contou-me que ele tinha centenas de roteiros escritos e escolheria alguns para me enviar, se eu quisesse quadrinizá-los. Topei para retribuir-lhe o favor (o prefácio de Musashi I). Comentei com ele que as histórias tinham climas claustrofóbicos. Então, Gonçalo batizou o álbum de “Claustrofobia”.

AH: Há bons roteiristas de Quadrinhos no Brasil?

JS: Devem ter. Mas o mercado pobre não os estimula a trabalhar com os quadrinhos. A média de remuneração se resume tradicionalmente a ¼ do que se paga ao desenhista, que já não é muito. Bons roteiristas e redatores estão, ou vão para a publicidade e jornalismo. Até roteiristas de Hollywood ganhavam miséria até poucos anos atrás. Fizeram greve. Só assim conseguiram bônus quando os filmes alcançavam sucessos de bilheteria. Mesmo assim, nunca alcançaram as remunerações de um diretor ou de um ator.

E um roteirista de cinema pasta à beça. Soube de roteiristas que reescrevem até dez vezes para um projeto de filme. O diretor palpita; o produtor palpita; e até o ator pede para adequar o diálogo para seu estilo de interpretação.

E nos quadrinhos não chega a tanto, mas os roteiros sofrem alterações por influências do editor, ou do desenhista.

AH: Assim como está acontecendo no futebol, já há algum tempo, os artistas (ou aspirantes a) de Quadrinhos já não se entusiasmam mais em publicar HQs no Brasil, preferindo desenhar, principalmente, para as editoras americanas, onde há mercado sólido e retorno financeiro garantido. O senhor concorda com essa atitude? Há como revertermos esse quadro?

JS: Concordo. Raras exceções, só quem deixa de ser provinciano e se imbui de mentalidade profissional cosmopolita pode se realizar como quadrinista, com todas as letras. Veja os desenhistas argentinos nos anos 50 e 60: foram para a Europa e os EUA. Salinas desenhou Cisco Kid, para a King Features (para citar um só). Do Brasil, saiu Fernando Dias, Gut (anos 60).

Os irmãos Bá, (Mike) Deodato, Wagner Antunes, etc, também costumam usar seus passaportes para ir a San Diego (a maior convenção de Quadrinhos americanos, onde geralmente, as grandes editoras dão um preview de seus grandes lançamentos da temporada), vender seus talentos. Nos anos 70 e 80, os filipinos vendiam seus “peixes” para editoras americanas (Warren, remember?).

AH: Na sua opinião, qual o futuro do mercado de Quadrinhos brasileiros?

JS: Acho que está escondida no contexto da pergunta anterior. O mercado tupiniquim vai ser sempre do mesmo tamanho de sempre, se não decrescer, é claro. Como os jogadores de futebol, os bons vão desenhar para fora e os provincianos – como eu, caipirão – ficarão por aqui, envelhecendo. Raras exceções, como Mauricio de Sousa e Ziraldo, sobreviverão bem aqui.

(Flávio) Colin, o saudoso mestre, sempre lamentou comigo não ter ido pros States quando teve oportunidade e apoio.

AH: De seu repertório de Histórias, qual a sua preferida?

JS: Não sinto firmeza. Ainda não fiz a minha agaquê preferida. Lembro-me sempre do que disse a minha avó. Tenho vontade de viver mais um pouco, de verdade, ainda que provinciano e matuto.

AH: Que tipo de música o senhor ouve?

JS: Gosto de músicas dos anos 50 e 60, latinas. Atualmente, tenho ouvido músicas populares japonesas, de décadas passadas.

AH: O senhor costuma ir a convenções (tipo Fest Comix)? Se sim, o senhor gosta dessa aproximação com os leitores?

JS: Chamam-me “O Eremita de Jacarepaguá”, pois raramente vou a eventos. Quando vou, até que curto o contato com os colegas e leitores. Continuo caipirão. E se há alguma premiação em meu nome, aí é que não vou mesmo! Tenho pavor de holofotes, ou atenção concentrada em mim. Timidez ou algum trauma de infância, quem sabe?

AH: O que vem pela frente, de Júlio Shimamoto, que poderia nos adiantar?

JS: Vários projetos atrasados: Musashi III; Zatoichi, O Espadachim Cego; Hideyoshi, de Mendigo a Shogum e 100 Anos da Imigração Japonesa.

AH: Bem, agradeço por essa oportunidade de entrevistá-lo e caso o senhor queira deixar um recado para os fãs e para os quadrinistas que estão começando, o espaço é todo seu…

JS: Eu é que agradeço à Areia Hostil por essa oportunidade de falar um pouco sobre quadrinhos, a minha cachaça. Bem, para os fãs, agradeço por me prestigiarem sempre. E aos quadrinistas que estão no início: pensem grande, com a mente cosmopolita. Nunca sejam provincianos. Obrigado pela atenção e abração a todos.

Areia Hostil entrevista Edgar Franco

novembro 26, 2009
by

Por Débora Lucas (02/11/04).

Edgar Franco desenvolveu o prazer de contar histórias desde quando aprendeu a falar e logo descobriu a linguagem das histórias em quadrinhos como um dos melhores veículos para sua expressão, mas junto com elas também sempre experimentou outras mídias e linguagens, escrevendo contos e poemas, ilustrando livros, revistas e capas de CDs, projetando arquitetura e websites, além de brincar com os sons em seus projetos musicais Essence & Mu.

Formou-se em arquitetura na Universidade de Brasília, e fez seu mestrado em Multimeios na Unicamp. Entre seus trabalhos de quadrinhos mais importantes estão os álbuns Agartha (Editora Marca de Fantasia) e Biocyberdrama, em parceria com Mozart Couto (Opera Graphica); atualmente Franco tem experimentado criar trabalhos para suportes hipermidiáticos, batizando essa linguagem híbrida de quadrinhos e hipermídia de “HQtrônicas”(histórias em quadrinhos eletrônicas), um de seus trabalhos intitulado Neomaso Prometeu recebeu menção honrosa no 13º Videobrasil – Festival Internacional de Arte Eletrônica (Sesc Pompéia/2001), além disso foi premiado recentemente no programa “Rumos Pesquisa 2003” do Centro Itaú Cultural em São Paulo, com sua pesquisa de doutorado (ECA/USP) “Perspectivas pós-humanas nas ciberartes”. É professor dos cursos de Arquitetura e Urbanismo & Ciência da Computação da PUC – MG (Unidade Poços de Caldas).

AH – Como e quando os quadrinhos surgiram na sua vida?

Edgar Franco – Bem, a história é parecida com a maioria daqueles que desenvolvem a paixão pela HQ, comecei a desenvolver o interesse por quadrinhos na mais tenra infância, incentivado por meu pai que comprava revistas da Disney, Mauricio de Sousa, Mortadelo e Salaminho, Luluzinha e outras. Dos 9 aos 12 anos deixei as HQs de lado e passei a interessar-me por cinema e literatura, lia principalmente livros de contos de terror e fantasia, tomando contato com gênios como Edgar Allan Poe, Guy de Maupassant, O.Henry, e outros, além de adorar o cinema de fantasia e horror de mestres como Ridley Scott e Dario Argento. O meu retorno às HQs aconteceu por volta dos 13 anos quando passei a me interessar pelas revistas de terror da editora D-Arte – Mestres do Terror & Calafrio, que traziam HQs de terror desenhadas só por artistas brasileiros como Mozart Couto, Flávio Colin, Jaime Cortez e outros, ao mesmo tempo comecei a interessar-me por poesia simbolista, lendo caras como Baudelaire e Álvares de Azevedo o que me despertou para a auto-expressão, isto é, passei a expressar minhas dores e conflitos adolescentes na forma de poemas que escrevia nos cantos dos cadernos da escola. O amor pelo desenho veio junto pois desde novo tinha já um certo talento para a coisa, seguindo instruções trazidas nas revistas de terror comprei pena e nanquim e comecei a tentar desenvolver minhas próprias HQs, sempre com a preocupação de não copiar nada, o que deixava os resultados pouco satisfatórios. Dai em diante não parei mais!


AH – Qual foi a primeira temática que você trabalhou em suas histórias? E qual foi o mais marcante?

EF – Minha primeira HQ chamou-se “O Filho de Lúcifer” e foi publicada num zine chamado Odisséia, era um terrorzão gore mas já trazia esboçado meu texto narrativo poético que tornou-se uma de minhas marcas mais tarde. Aos poucos fui unindo minha veia poética à narrativa quadrinhística, passando a desenvolver também uma paixão por filosofia. Nunca me interessei por Super-Heróis e só vim a lê-los quando do surgimento das obras geniais de Frank Miller e Alan Moore, mas o grande momento foi o meu encontro com a HQ européia e o trabalho de mestres como Philipe Druillet e Caza, onde repensei completamente o conceito de HQ. Depois vieram os zines e o contato com outros trabalhos de vanguarda de contemporâneos geniais como Gazy Andraus, Flávio Calazans e Antônio Amaral, e aqui estamos nós envolvidos nesse universo fantástico dos quadrinhos. A todo dia estou recomeçando, procurando sempre melhorar e acredito que ainda estou só no começo! O meu trabalho mais marcante é sempre o que ainda está por ser feito, germinando na minha essência, como artista sou inquieto e sempre insatisfeito com o que fiz, mas se for pra apontar alguns trabalhos em especial posso citar o meu álbum “Agartha”, com uma HQ de 64 páginas que reflete sobre transcendência e matéria, foi publicado pela Editora Marca de Fantasia, é um trabalho conceitual com um sem número de referências às mais diversas teorias e hipóteses da existência de um paraíso após a morte e as implicações de uma possível persistência do ego; e é claro, meu álbum BioCyberDrama, uma parceria com Mozart Couto que teve ótima recepção de público e crítica. Gosto também de minha HQtrônica “NeoMaso Prometeu” que recebeu menção honrosa no festival Videobrasil. Para quem tiver interesse de navegar por ela, basta clicar na imagem abaixo:

AH – O que é uma HQtrônica?

EF – Minha dissertação de mestrado em multimeios na Unicamp trata da hibridização entre os códigos gráficos da HQ tradicional com as possibilidades abertas pelas hipermídias. Em dois anos de análises cheguei à conclusão de que as HQs hipermidiáticas não são mesmo aquilo que convencionamos chamar de “quadrinhos” , mas também não são desenhos animados. São, na verdade, uma nova linguagem híbrida que funde códigos da linguagem dos quadrinhos impressos como: o balão de fala, a divisão em requadros, a onomatopéia, etc; às novas possibilidades abertas pela hipermídia como: animação, diagramação dinâmica, efeitos sonoros, trilha, sonora, multilinearidade e interatividade! Eu intitulei essa nova linguagem de HQtrônica (um neologismo que funde o termo HQ – história em quadrinhos com o termo eletrônicas), em breve será lançado pela editora Annablume & Fapesp de São Paulo o meu livro “HQtrônicas – Do Suporte Papel à Rede Internet”, o livro é uma atualização de minha pesquisa e inclui um CD-Rom com minhas HQtrônicas “NeoMaso Prometeu” & “Ariadne e o Labirinto Pós-Humano”.

AH – Qual a vantagem de ligar a hipermídia com as histórias em quadrinhos?

EF – Com essa ligação surge um fenômeno intermídia que não é mais HQ, congregando outras possibilidades, uma linguagem nova, com nova sintaxe e em estágio inicial de consolidação. Não quero dizer que essa nova linguagem é melhor ou pior do que a linguagem tradicional das HQs em suporte papel, ela é apenas diferente, eu continuo gostando muito das HQs impressas e criando para essa linguagem, mas também estou abrindo o meu processo criativo para investigar as novas possibilidades das hipermídias. Uma linguagem não irá superar ou ameaçar a outra, elas conviverão pacificamente, como acontece com teatro, cinema, vídeo e os games.

AH – Atualmente essa ligação está sendo bem aceita?

EF – O número de sites que trazem HQtrônicas tem crescido muito nos últimos 3 anos, muitos artistas dos quadrinhos tem se interessado em criar utilizando as novas mídias, sem contar os jovens que já estão aderindo a esse tipo de linguagem hipermídia sem nunca terem desenhado HQs em suporte papel. Acredito que é uma nova possibilidade criativa com um grande potencial, apesar do problema maior que é a questão da remuneração pelo trabalho feito para a web…

AH – Quadrinhos: profissão ou lazer? Por quê?

EF – Viver de HQ no Brasil é quase impossível!! Eu estou conseguindo esse feito agora porque decidi seguir a carreira acadêmica, pesquisando sempre HQs é claro, o meu mestrado na Unicamp foi sobre HQ na Internet, no doutorado (ECA/USP) estou estudando narrativas híbridas e mídia arte, também sou professor dos cursos de Arquitetura e Ciência da Computação da PUC-MG, unidade Poços de Caldas. Meu estilo de narrativa, meu desenho, e o conteúdo de meus trabalhos, o inscreve em uma categoria que podemos chamar de HQ autoral, se fazer quadrinhos no Brasil é uma coisa difícil, imagine então fazer HQs poéticas & filosóficas. Mas eu não abdico de minha expressão pessoal e autoral por nada e continuo fazendo minhas HQs num bom ritmo, sempre buscando veículos interessados em publicá-las, como as revistas alternativas “Scarium”, “Areia Hostil”, “Quadreca (Eca/USP)”, algumas do exterior como “AHBD!” (da Romênia) e “Andromeda” (da Alemanha), sem contar os inúmeros fanzines. Eu já ultrapassei há algum tempo a marca das 1000 páginas publicadas, mas os únicos momentos em que o meu trabalho chegou a um publico maior foram com as revistas “Metal Pesado”, “Brasilian Heavy Metal”, “Quark” e “Nektar”. A editora Marca de Fantasia tem sido uma parceira maravilhosa, acreditando sempre no meu trabalho, ela lançou recentemente o meu álbum “Transessência”, coletânea de HQs curtas onde incluí alguns dos meus melhores trabalhos, também é possível adquirir ainda o já citado álbum “Agartha” e recentemente também foi lançado o livro “História em Quadrinhos e Arquitetura”, um ensaio teórico sobre a relação entre HQs e arquitetura, com mais de 40 ilustrações, incluindo uma HQ inédita minha no final. Os quadrinhos são a minha profissão, mas eu vivo do meu hobby que é ser professor e pesquisador!

EF – Ultimamente tenho feito diversas incursões pela FC, mais especificamente vários trabalhos em mídias diversas – todos dentro do universo que intitulei “Aurora Pós-Humana”, estou trabalhando na série de HQs curtas “Artlectos e Pós-Humanos”, que vem sendo publicada na Areia Hostil, Scarium e Quadreca, também estou desenvolvendo um projeto para transformar a “Aurora Pós-Humana” em um RPG. Além disso o álbum BioCyberDrama II, nova parceria entre Mozart Couto e eu, já está pronto e enquanto procuramos um editor para ele, já iniciamos os trabalhos de BioCyberDrama III, parte final da trilogia. Uma série de 3 novas HQtrônicas intitulada “Crepúsculo Pós-Humano” está aos poucos sendo elaborada e, por último, estou desenvolvendo um trabalho de web arte- que envolve vida digital & algoritmos genéticos – de nome “O Mito Ômega”, enfim, estou ativo e feliz com todos esses projetos que pretendo concretizar no seu devido tempo.

AH – Como está o mercado para esta área?

EF – Como eu disse viver de quadrinhos no Brasil não é uma tarefa fácil. O mercado de HQs é entulhado de material estrangeiro que chega a módicos preços para nossas editoras, já que já obteve muitos lucros em seus países de origem, podem ser negociados a preços convidativos, assim a concorrência com o produto nacional torna-se desleal. E tem também o problema da popularização de outras mídias como games, internet, DVD, tudo isso contribui para a diminuição do interesse pelos quadrinhos. Eu acredito que a longo prazo as HQs serão um produto cult, algo voltado para uma pequena parcela de interessados, publicadas em álbuns de luxo e distribuídas somente em livrarias, vai deixar de ser uma mídia de massa, isso não é legal, pois a formação de novos leitores ficará abalada, mas acredito ser inevitável.

Nós, do Estúdio Areia Hostil, agradecemos à jornalista Débora Lucas e ao quadrinhista Edgar Franco

 

por nos cederem o direito de publicar esta entrevista aqui no nosso site .

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.